quarta-feira, 10 de setembro de 2008

MEMÓRIAS

“Eu lamento muito, Seth. Eu devia ter ficado mais perto.”
Edward ainda estava se desculpando, e eu não achei isso justo e nem apropriado. Afinal, Edward não perdeu completamente e indesculpavelmente o controle de seu temperamento. Edward não tentou arrancar a cabeça de Jacob – Jacob, que nem sequer se transformou para se proteger – e então acidentalmente quebrou o ombro e a clavícula de Seth quando pulou entre os dois. Não foi Edward que quase matou seu melhor amigo.
Não que o melhor amigo dele não tivesse algumas coisas para explicar, mas, obviamente, nada que Jacob tivesse feito poderia ter justificado esse comportamento.
Então não devia ser eu me desculpando?
Eu tentei de novo.
“Seth, eu –“
“Não se preocupe, Bella, eu estou totalmente bem”, Seth disse ao mesmo tempo que Edward disse, “Bella, amor, ninguém está te julgando. Você está se saindo tão bem.”
Eles ainda não tinham me deixado terminar a frase.
O fato de Edward estar tendo dificuldades pra manter o sorriso fora do rosto só piorava as coisas. Eu sabia que Jacob não merecia minha reação exagerada, mas Edward parecia achar algo satisfatório nela. Talvez ele estava apenas desejando ter a desculpa de ser um recém nascido poder fazer uma demonstração física de sua irritação com Jacob também.
Eu tentei apagar inteiramente a raiva do meu sistema, mas era difícil, sabendo que Jacob estava lá fora com Renesmee agora mesmo. Mantendo-a em segurança contra mim, a recém nascida enlouquecida.
Carlisle grudou outro pedaço de gesso no braço de Seth, e Seth gemeu.
“Desculpe, desculpe!” Eu murmurei, sabendo que eu nunca ia conseguir articular uma desculpa apropriada.

“Não se estressa, Bella”, Seth disse, dando um tapinha em meu joelho com a mão boa enquanto Edward esfregava meu braço do outro lado.
Seth não parecia ter nenhuma aversão a me ter sentada ao lado dele no sofá enquanto Carlisle o tratava. “Eu estarei de volta ao normal em uma hora e meia”, ele continuou, ainda batendo no meu joelho como se fosse indiferente à sua textura fria e dura. “Qualquer um teria feito o mesmo, o que Jake e Ness –“ Ele parou no meio da frase e mudou de assunto rapidamente. “Quer dizer, pelo menos você não me mordeu nem nada assim. Isso teria sido um saco.”
Eu enterrei o rosto nas mãos e estremeci com o pensamento, por causa da real possibilidade. Isso podia ter acontecido tão facilmente. E lobisomens não reagiam ao veneno dos vampiros da forma que os humanos reagiam, como eles tinham acabado de me contar. Era fatal para eles.
“Eu sou uma má pessoa.”
“É claro que não é. Eu não devia ter –“ Edward começou.
“Pare com isso”, eu suspirei. Eu não queria que ele tomasse a culpa para si do jeito como ele tomava tudo pra si.
“Que sorte que Ness – Renesmee não é venenosa”, Seth começou depois de um segundo de estranho silêncio. “Porque ela morde Jake o tempo todo.”
Minhas mãos caíram. “Ela morde?”
“Claro. Sempre que Rose não coloca o jantar rápido o suficiente na boca dela. Rose acha muito hilário.”
Eu o encarei, chocada, e também me sentindo culpada, porque eu precisava admitir que isso me agradava um pouquinho de uma forma petulante.
É claro, eu já sabia que Renesmee não era venenosa. Eu fui a primeira pessoa que ela mordeu. Eu não fiz essa observação em voz alta, já que eu estava fingindo ter perdido as memórias sobre aqueles eventos recentes.

“Bem, Seth”, Carlisle disse, erguendo as costas e se afastando de nós. “Eu acho que isso é tudo o que eu posso fazer. Tente não se mover por, oh, algumas horas, eu acho.” Carlisle gargalhou. “Eu queria que tratar humanos fosse instantaneamente gratificante dessa forma”. Ele descansou a mão um instante no cabelo preto de Seth. “Fique parado”, ele disse, então desapareceu indo para o andar de cima. Eu ouvi a porta do seu escritório se fechando, e eu me perguntei se eles já haviam removido os traços do tempos que eu fiquei lá.
“Eu provavelmente consigo ficar quieto por um tempo”, Seth concordou depois que Carlisle já havia saído, e então deu um bocejo enorme. Cuidadosamente, prestando atenção pra não mexer o ombro, Seth descansou a cabeça no encosto do sofá e fechou os olhos. Segundos depois a boca dele já estava escancarada.
Eu fiz uma careta para seu rosto tranqüilo por um momento. Como Jacob, Seth parecia ter o dom de dormir quando bem queria. Sabendo que eu não seria capaz de me desculpar novamente por uns tempos, eu levantei; o movimento não moveu nem um pouco o sofá. Tudo fisicamente falando era tão fácil, mas o resto...
Edward me seguiu até a janela dos fundos e segurou minha mão.
Leah estava caminhando na beira do rio, parando de vez em quando para dar uma espiada na casa. Era fácil saber quando ela estava procurando por seu irmão e quando ela estava procurando por mim. Ela se alternava entre olhares ansiosos e encaradas assassinas.
Eu podia ouvir Jacob e Rosalie do lado de fora nos degraus da frente brigando baixinho pra ver de quem era a vez de alimentar Renesmee. O relacionamento deles estava antagonista como sempre; a única coisa na qual eles concordavam era que eu devia ser mantida longe do meu bebê até que eu estivesse cem por cento certa de que estava recuperada da minha explosão de temperamento. Edward tinha questionado a sentença dos dois, mas eu deixei pra lá. Eu também queria ter certeza. Eu estava preocupada, no entanto, que o meu cento por cento certa e o cem por cento certa deles fossem coisas meio diferentes.
Além da pequena discussão deles, a respiração lenta de Seth, e o resfôlego impaciente de Leah, estava muito quieto. Emmett, Alice e Esme estavam caçando. Jasper tinham ficado pra trás pra ficar de olho em mim. Ele estava atrás do corrimão da escada agora, de forma a não parecer um intruso, tentando não ser chato.
Eu tirei vantagem da calma pra pensar em todas as coisas que Edward e Seth me disseram enquanto Carlisle engessava o braço de Seth. Eu tinha perdido um monte de coisa enquanto estava queimando, e essa era a primeira chance real de me atualizar.
A coisa mais importante foi o término da briga com o bando de Sam – e era por isso que os outros se sentiam livres para ir e vir como queriam novamente. A trégua estava mais forte que nunca. Ou mais absoluta, dependendo do seu ponto de vista, eu imagino.
Absoluta, porque a mais absoluta das leis dos lobos era que nenhum lobo matasse o objeto de impressão do outro. A dor de tal coisa seria tolerada pelo bando inteiro. A culpa, fosse intencional ou acidental, não podia ser perdoada; os lobos envolvidos lutariam até a morte – não havia opção. Isso já aconteceu muito tempo atrás, Seth me disse, mas apenas acidentalmente. Nenhum lobo destruiria intencionalmente o irmão dessa maneira.

Então Renesmee era intocável por causa do forma que Jacob se sentia em relação a ela agora. Eu tentei me concentrar no alívio que isso trazia, ao invés de pensar no meu pesar, mas não era fácil. Minha mente tinha espaço suficiente para as duas emoções reagirem intensamente ao mesmo tempo.
E Sam também não podia ficar com raiva da minha transformação, porque Jacob – falando como Alpha por direito – tinha permitido. Eu me lembrei várias vezes do quanto eu devia a Jacob quando tudo o que eu queria era ficar com raiva dele.
Eu deliberadamente redirecionei meus pensamentos para controlar minhas emoções. Eu considerei outro fenômeno interessante; apesar do silêncio entre os dois bandos continuar, Jacob e Sam descobriram que Alphas podem falar um com o outro quando eu sua forma de lobo. Não era como antes; eles não podiam ouvir todos os pensamentos que tinham como antes da separação. Era mais como falar em voz alta, Seth disse. Sam só podia ouvir os pensamentos quando Jacob quisesse dividi-los, e vice versa. Eles descobriram que também podiam se comunicar à distância, agora que estavam falando um com o outro de novo.
Eles não descobriram isso até que Jacob foi sozinho – sob os protestos de Seth e Leah – contar sobre Renesmee; foi a primeira vez que ele deixou Renesmee desde que pôs os olhos nela.
Quando Sam compreendeu o quão absolutamente tudo havia mudado, ele voltou com Jacob para conversar com Carlisle. Eles conversaram na forma humana (Edward se recusou a sair do meu lado para traduzir), e o trato foi renovado. O sentimento amigável do relacionamento, no entanto, talvez jamais fosse o mesmo.
Uma grande preocupação a menos.
Mas havia outra que, apesar de não ser fisicamente perigosa como um bando de lobos enraivecidos, ainda parecia mais urgente pra mim.
Charlie.

Ele tinha falado com Esme cedo, esta manhã, mas isso não o impediu de ligar novamente, duas vezes, há apenas alguns segundos, enquanto Carlisle tratava de Seth. Carlisle e Edward deixaram o telefone tocar.
Contar a ele seria a coisa certa? Será que os Cullen estavam certos? Dizer a ele que eu tinha morrido era a melhor forma, a mais carinhosa? Será que eu seria capaz de deitar imóvel num caixão enquanto ele e minha mãe choravam sobre mim?
Não parecia certo pra mim. Mas colocar Charlie e Renee na minha da obsessão do Volturi com esse segredo claramente estava fora de questão.
Ainda havia minha idéia – deixar que Charlie me visse, quando eu estivesse pronta para isso, e deixá-lo tirar as conclusões erradas. Tecnicamente, as regras dos vampiros continuariam intactas. Não seria melhor para Charlie se ele soubesse que eu ainda estava viva – mais ou menos – e feliz? Mesmo estando estranha e diferente e provavelmente assustadora para ele?
Meus olhos, em particular, eram assustadores demais no momento. Quanto tempo até que meu autocontrole e a cor dos meus olhos estivessem prontos para Charlie?
“Qual é o problema, Bella?” Jasper perguntou baixinho, lendo minha crescente tensão. “Ninguém está com raiva de você” – um rosnado baixo ao lado do rio o contradisse, mas ele o ignorou – “nem mesmo surpreso, na verdade. Bem, eu acho que estamos surpresos. Surpresos por você ter recobrado sua consciência tão rapidamente. Você foi bem. Melhor do que alguém espera de você.”
Enquanto ele estava falando, o quarto foi ficando muito calmo. A respiração de Seth escapou num breve ronco. Eu me sentia mais em paz, mas não esqueci minhas ansiedades.
“Na verdade, eu estava pensando em Charlie.”
Lá fora, a briguinha parou.
“Ah”, Jasper murmurou.

“Nós realmente precisamos ir embora, não é?” Eu perguntei. “Por um tempo, pelo menos. Fingir que estamos em Atlanta ou algo assim.”
Eu podia sentir o olhar de Edward preso no meu rosto, mas continuei olhando para Jasper. Foi ele quem me respondeu num tom grave.
“Sim. É a única forma de proteger o seu pai.”
Eu pensei por um momento. “Eu vou sentir muita falta dele. eu vou sentir falta de todos por aqui.”
Jacob, eu pensei a despeito de mim mesma. Apesar daquela necessidade ter desaparecido e se definido – e eu estava vastamente aliviada por isso – ele ainda era meu amigo. Alguém que conhecia a verdadeira eu e que a aceitava. Mesmo como um monstro.
Eu pensei no que Jacob tinha dito, implorando pra mim antes de eu atacá-lo. Você disse que pertencíamos à vida um do outro, certo? Que nós éramos uma família. Voc~e disse que era assim que deveria ser entre nós. Então... agora somos. É tudo o que você queria.
Mas não parecia ser tudo o que eu queria. Não exatamente. Eu me lembrei de algum tempo atrás, nas confusas, fracas memórias da minha vida humana. De volta ao tempo que era o mais difícil de lembrar – o tempo sem Edward, um tempo tão obscuro que eu tentei enterrar na minha mente; eu lembrei de só desejar que Jacob fosse meu irmão para que nós pudéssemos amar um ao outro sem confusão o dor. Mas eu nunca envolvi uma filha na equação.
Eu me lembre de algum tempo depois – uma das muitas vezes quando eu disse adeus a Jacob – me perguntando em voz alta com quem ele acabaria ficando, quem acertaria a vida dele depois de tudo que eu havia feito com ela. Eu disse que, quem quer que ela fosse, ela não seria boa o suficiente pra ele.


Eu bufei, e Edward ergueu uma sobrancelha me questionando. Eu só balancei a cabeça para ele.
Mas mesmo sentindo falta do meu amigo, eu sabia que havia um problema maior. Sam ou Jared ou Quil já haviam passado um dia inteiro sem ver os objetos se suas fixações, Emily, Kim e Claire? Será que eles conseguiriam fazer isso? o que a separação de Renesmee faria com Jacob? Ia causar dor a ele?
Ainda havia suficiente ira em meu sistema para que eu ficasse feliz, não com a dor dele, mas com a idéia de tirar Renesmee de perto dele. Como eu podia lidar com a idéia dela pertencer a Jacob quando ela mal pertencia a mim?
O som do movimento na varanda da frente interrompeu meus pensamentos. Eu os ouvi levantar, e então eles passaram pela porta da frente. Exatamente no mesmo momento, Carlisle desceu as escadas com as mãos cheias de coisas estranhas – uma fita métrica, uma escala. Jasper veio para o meu lado. Como se houvesse um sinal que eu havia ignorado, até mesmo Leah se sentou do lado de fora e olhou pra dentro pela janela com uma expressão como se ela esperasse alguma coisa familiar e ao mesmo tempo totalmente desinteressante ao mesmo tempo.
“Deve ser seis”, Edward disse.
“Então?”, eu perguntei, meus olhos presos em Rosalie, Jacob e Renesmee. Eles estavam na porta de entrada, Renesmee nos braços de Rosalie. Rosalie parecia de sobre-aviso. Jacob parecia confuso. Renesmee estava linda e impaciente.
“Hora de medir Ness – er, Renesmee”, Carlisle explicou.
“Oh. Vocês faz isso todos os dias?”
“Quatro vezes por dia”, Carlisle corrigiu ausentemente enquanto gesticulava para que os outros fossem para o sofá. Eu pensei ter visto Renesmee suspirar.
“Quatro vezes? Todo dia? Porque?”


“Ela ainda está crescendo rapidamente”, Edward murmurou pra mim, a voz dele baixa e forçada. Ele apertou minha mão, enquanto seu outro braço se prendia seguramente na minha cintura, quase como se ele precisasse de apoio.
Eu não conseguia tirar os olhos de Renesmee para checar a expressão dele.
Ela parecia perfeita, absolutamente saudável. A pele dela cintilava como alabastro polido; a cor nas bochechas dela era como pétalas de rosa sobre a pele. Não podia haver nada de errado com essa beleza tão radiante. Certamente não podia haver nada mais perigoso na minha dela do que sua mãe. Ou podia?
A diferença entre a criança a qual eu dei a luz e a que eu encontrei de novo uma hora atrás era óbvia pra qualquer um. A diferença entre a Renesmee de uma hora atrás e a de agora era menos notável. Olhos humanos não a teriam detectado. Mas ela estava lá.
Seu corpo estava um pouco mais longo. Só um pouco mais magro. Seu rosto já não era mais tão redondo; ficava mais oval a cada segundo. Seus cachinhos estavam minimamente mais próximos dos ombros. Ela se esticou esperançosamente nos braços de Rosalie enquanto Carlisle passava a fita métrica em seu corpo e depois a usou para circular sua cabeça. Ele não tomou notas; lembrava perfeitamente.
Eu estava consciente de que os braços de Jacob estavam cruzados com força sobre seu peito assim como os braços de Edward estavam presos a mim. Seus sobrancelhas pesadas estavam se unindo por cima de seus olhos cavados.
Ela tinha amadurecido de uma pequena célula e se transformado num bebê de tamanho normal no curso de algumas semanas. Ela parecia bem sendo um bebê apenas dias depois do seu nascimento. Se esse padrão de crescimento se mantivesse...


Minha mente de vampira não teve problemas com a matemática.
“O que vamos fazer?” Eu sussurrei, horrorizada.
Os braços de Edward se apertaram. Ele entendia exatamente o que eu estava pensando. “Eu não sei.”
“Está diminuindo”, Jacob murmurou através dos dentes.
“Precisaremos de vários dias mais de medição para estabelecer um ritmo, Jacob. Eu não posso fazer promessas.”
“Ontem ela cresceu cinco centímetros. Hoje foi menos.”
“Cerca de dois centímetros a cada trinta segundos, se minhas medições forem perfeitas”, Carlisle disse baixinho.
“Seja perfeito, Doutor”, Jacob disse, quase transformando as palavras numa ameaça. Rosalie enrijeceu.
“Você sabe que eu farei o melhor”, Carlisle o assegurou.
Jacob suspirou. “Acho que isso é só o que eu posso pedir.”
Eu me senti irritada de novo, como se Jacob estivesse roubando as minhas falas – e dizendo todas elas erradas.
Renesmee parecia irritada também. Ela começou a se mexer e então ergueu a mão imperiosamente para o rosto de Rosalie. Rosalie se inclinou pra frente para que Renesmee pudesse tocar seu rosto. Depois de um segundo, Rosalie suspirou.
“O que ela quer?” Jacob quis saber, roubando a minha fala de novo.
“Bella, é claro”, Rosalie disse a ele, e as palavras dela me fizeram sentir quentinha por dentro. Então ela olhou pra mim. “Como você está?”
“Preocupada”, eu admiti, e Edward me apertou.
“Todos nós estamos. Mas não foi isso que eu quis dizer.”
“Eu estou sob controle”, eu prometi. Sede estava bem embaixo na minha lista nesse momento. Além do mais, Renesmee tinha um cheiro muito bom, e não no sentido comestível.
Jacob mordeu o lábio mas não se moveu para impedir Rosalie quando ela ofereceu Renesmee para mim. Jasper e Edward ficaram rondando mas permitiram. Eu podia ver o quanto Rose estava tensa, e eu me perguntei como a sala estaria para Jasper agora. Ou ele estava tão concentrado em mim que não conseguia sentir os outros?
Renesmee se inclinou pra mim como eu me inclinei para ela, um sorriso brilhante iluminando seu rosto. Ela cabia tão facilmente nos meus braços, como se eles tivessem sido feitos para ela. Imediatamente ele pôs a mão quente em minha bochecha.
Apesar deu estar preparada, ver a visão que parecia uma memória na minha cabeça ainda me fez perder o fôlego. Tão clara e colorida mas também, completamente transparente.
Ela estava lembrando de mim, me atirando contra Jacob no gramado da frente, lembrando de Seth se metendo entre nós dois. Ela tinha visto e ouvido tudo com perfeita claridade. Não parecia comigo, essa predadora graciosa saltando sobre sua presa como uma flecha voando de um arco. Tinha que ser outra pessoa. Ver Jacob erguer as mãos na frente do rosto em sinal de defesa fez eu me sentir um pouquinho melhor. As mãos dele não estavam tremendo.
Edward gargalhou, vendo os pensamentos de Renesmee comigo. E então nós dois gememos quando ouvimos o som dos ossos de Seth se quebrando.
Renesmee mostrou seu sorriso brilhante, e os olhos de sua memória não saíram de Jacob durante toda a bagunça que se seguiu. Eu senti um novo sabor ligado à memória – não exatamente protetor, mais possessivo – enquanto ela observava Jacob. Eu tive a distinta impressão de que ela ficou feliz quando Seth se jogou na frente do meu salto. Ela não queria que Jacob se machucasse. Ele era dela.
“Oh, maravilha”, eu gemi. “Perfeito.”
“É só porque o gosto dele é melhor que o nosso”, Edward me assegurou, sua voz dura com seu próprio aborrecimento.
“Eu disse que ela gosta de mim também”, Jacob zombou do outro lado da sala, os olhos grudados em Renesmee. A piada dele foi sem vontade; o ângulo tenso das sobrancelhas dele não relaxou.
Renesmee cutucou meu rosto impacientemente, chamando minha atenção. Outra memória: Rosalie passando uma escova cuidadosamente por cada um de seus cachos. A sensação foi boa.
Carlisle e sua fita métrica, sabendo que ela tinha que se esticar e ficar parada. Isso não era interessante pra ela.
“Parece que ela está te atualizando em tudo o que você perdeu”, Edward comentou no meu ouvido.
Meu nariz coçou quando ela mostrou a próxima pra mim. O cheiro vinha de um estranho copo de metal – duro o suficiente para não ser facilmente mordido – mandou uma queimação repentina pela minha garganta. Ouch.
E então Renesmee foi retirada dos meus braços, que estavam presos atrás das minhas costas. Eu não lutei com Jasper; eu só olhei para o rosto assustado de Edward.
“O que eu fiz?”
Edward olhou para Jasper atrás de mim, e então para mim de novo.
“Mas ela estava lembrando de estar com sede”, Edward murmurou, sua testa se enrugando. “Ela estava lembrando o gosto do sangue dos humanos.”
Jasper apertou mais os meus braços. Parte da minha mente notou que eu não estava particularmente desconfortável, muito menos dolorida, como teria sido pra um humano.
Só era chato. Eu tinha certeza de que conseguiria me livrar de suas mãos, mas não lutei.
“Sim”, eu concordei. “E?”
Edward fez careta pra mim por mais um segundo, e então sua expressão afroxou. Ele riu uma vez. “E, absolutamente nada, pelo que parece. A reação exagerada dessa vez foi minha. Jezz, solte-a.”
As mãos desapareceram. Eu busquei Renesmee assim que estava livre. Edward passou-a pra mim sem hesitação.
“Eu não compreendo”, Jasper disse. “Eu não agüento isso.”
Eu observei surpresa enquanto Jasper saia pela porta dos fundos. Leah se moveu para dar a ele uma grande margem de espaço enquanto ele caminhou até o rio e se jogou na beirada.
Renesmee tocou minha bochecha, repetindo mais uma vez a cena da saída, como um replay instantâneo. Eu podia sentir a pergunta nos seus pensamentos, um eco dos meus.
Eu já tinha me recuperado do choque de seu estranho pequeno dom. Parecia uma parte inteiramente natural dela, era quase esperado. Talvez agora que eu mesma fazia parte do sobrenatural, eu nunca mais seria cética novamente.
Mas o que havia de errado com Jasper?
“Ele vai voltar”, Edward disse, se foi pra mim ou para Renesmee, eu não sei. “Ele só precisa de um momento a sós para reajustar sua perspectiva de vida.” Havia um sorriso ameaçando os cantos da boca dele.
Outra memória humana – Edward me dizendo que Jasper se sentiria melhor se eu tivesse “dificuldades em me ajustar” a ser uma vampira. Esse era um novo contexto da discussão sobre quantas pessoas eu ia matar em meu primeiro ano como recém nascida.
“Ele está com raiva de mim?” Eu perguntei baixinho.
Os olhos de Edward se arregalaram. “Não. Porque ele estaria?”
“Qual é o problema, então?”
“Ele está zangado consigo mesmo, Bella, não com você. Ele está se preocupando em... profecias auto realizáveis, eu acho que pode-se dizer assim.”
“Como assim?” Carlisle perguntou antes que eu pudesse.
“Ele está se perguntando se a loucura de um recém nascido é realmente tão difícil quanto nós sempre pensamos, ou se, com a concentração e atitude certas, quando um pode ser como Bella. Mesmo agora – talvez ele só tenha tal dificuldade porque ele acredita que isso é natural e inevitável. Talvez se ele esperasse mais de si mesmo, ele atingisse tais expectativas. Você está fazendo-o questionar um monte de coisas que ele acreditava profundamente ser garantidas, Bella.”
“Mas isso é injusto”, Carlisle disse. “Todo mundo é diferente; todos têm seus próprios desafios. Talvez o que Bella está fazendo vá além do natural. Talvez esse seja o dom dela, por assim dizer.”
Eu fiquei congelada pela surpresa. Renesmee sentiu a mudança, e me tocou. Ela lembrou do último segundo do tempo e se perguntou por quê.
“Essa é uma teoria interessante e bastante plausível”, Edward disse.
Por um pequeno espaço de tempo, eu fiquei decepcionada. O quê? Nada de visões mágicas, nada de habilidades ofensivas como, oh, atirar raios com os olhos ou algo assim? Absolutamente nada legal ou útil?
E então eu me dei conta do que isso queria dizer, se o meu “super poder” fosse nada além de um autocontrole excepcional.
Pra começar, pelo menos eu tinha um dom. Eu podia não ter tido nada.
Mas, mais que isso, se Edward estivesse certo, então eu podia pular a parte que eu tanto havia temido.
E se eu não precisasse ser uma recém nascida? Não no sentido daquelas máquinas de matar alucinadas, pelo menos. E se eu me ajustasse aos Cullen desde o primeiro dia? E se eu não precisasse me esconder num lugar remoto por um ano enquanto eu “crescia”? E se, como Carlisle, eu nunca matasse ninguém? E se eu pudesse ser uma boa vampira imediatamente?
Eu poderia ver Charlie.
Eu suspirei assim que a realidade tomou conta da esperança. Eu não podia ver Charlie imediatamente. Os olhos, a voz, o rosto perfeito. O que eu podia dizer pra ele; como eu ia começar? Eu estava furtivamente feliz por ter algumas desculpas para atrasar um pouco as coisas; mesmo querendo tanto encontrar uma forma de manter Charlie em minha vida, eu estava morrendo de medo do meu primeiro encontro com ele. Ver seus arregalando quando ele olhasse pro meu rosto novo, minha pele nova. Saber que ele estava assustado. Imaginar que explicação nebulosa se formaria em sua cabeça.
Eu era covarde o suficiente para esperar um ano enquanto meus olhos ficavam claros. E cá estava eu, pensando que seria tão destemida quando fosse indestrutível.
“Você já viu um equivalente de alto controle como talento?” Edward perguntou a Carlisle. “Você realmente acha que isso é um dom, ou produto de toda a preparação dela?”
Carlisle ergueu os ombros. “É um pouco similar ao que Siobhan era capaz de fazer, apesar dele não chamar isso de dom.”


“Siobhan, seu amigo do clã Irlandês?” Rosalie perguntou. “Eu não sabia que ela podia fazer alguma coisa especial. Eu pensei que Maggie fosse a talentosa daquele grupo.”
“Sim, Siobhan pensa o mesmo. Mas ela tem essa forma de estabelecer suas metas e então quase... transformá-las em realidade. Ela acha que isso são bons planejamentos, mas nós sempre nos perguntamos se havia algo mais. Quando ela incluiu Maggie no clã, por exemplo. Liam estava sendo egoísta, mas Siobhan queria que desse certo, e então deu.”
Edward, Carlisle e Rosalie se sentaram em cadeiras enquanto continuavam a discussão. Jacob estava sentado protetoramente perto de Seth, parecendo entediado. Pelo jeito que as pálpebras dele estavam caindo, eu tinha certeza de que ele estaria inconsciente em um momento.
Eu ouvi, mas toda a minha atenção estava dividida. Renesmee ainda estava me contando sobre seu dia. Eu a segurei perto da parede de vidro, meus braços ninando-a automaticamente enquanto olhávamos uma para os olhos da outra.
Eu me dei conta de que os outros não tinham motivos para se sentar. Eu estava perfeitamente confortável de pé. Era tão confortável quanto seria estar numa cama. Eu sabia que seria capaz de ficar assim de pé por uma semana sem mover e ao final dos sete dias ainda me sentiria tão relaxada quanto me sentia no começo.
Eles deviam fazer isso por hábito. Humanos notariam uma pessoa de pé por horas sem sequer trocar o peso de um pé pro outro. Mesmo agora, Rosalie passou os dedos pelos cabelos e Carlisle cruzou as pernas. Pequenos movimentos que os impediam de ficar parados demais, demais para um vampiro. Eu teria que prestar atenção ao que eles faziam e começar a praticar.
Eu passei meu peso de volta para a perna esquerda. Pareceu meio bobo.
Talvez eles estivessem apenas tentando me dar algum tempo a sós com o bebê – tão a sós quanto fosse seguro.
Renesmee me contou tudo sobre o que aconteceu em cada minuto do seu dia, e eu tive a sensação de ser o tenor das historinhas que ela queria me contar, tanto quanto eu queria ouvir. Ela estava preocupada que eu tivesse perdido as coisas – como os pardais que haviam chegado mais e mais perto quando Jacob a segurou, os dois pássaros muito quietos no galho a árvore; os pássaros não se aproximavam do Rosalie. Ou a coisa branca ultrajantemente nojenta – fórmula de bebês – que Carlisle colocou em seu copo; tinha cheiro de sujeira azeda. Ou a música que Edward havia sussurrado para ela, que era tão perfeita que Renesmee tocou pra mim duas vezes; eu fiquei surpresa por ser o plano de fundo dessa memória, perfeitamente imóvel, mas parecendo um pouco cansada. Eu estremeci, lembrando daqueles tempos em minha própria perspectiva. O fogo odioso...


Depois de quase uma hora – os outros ainda estavam profundamente absorvidos em sua conversa, Seth e Jacob roncando em harmonia no sofá – a memória das histórias de Renesmee começaram a ficar lentas. Elas ficaram meio borradas e apagadas nos cantos e ficavam fora de foco antes de chegarem ao fim. Eu estava prestes e interromper Edward cheia de pânico – alguma coisa estava acontecendo com ela? – quando suas pálpebras flutuaram e se fecharam. Ela bocejou, seus lábios rosa claros se esticando num O redondo, e seus olhos não se abriram mais.
A mão dela caiu do meu rosto enquanto ela caia no sono – a parte de trás das pálpebras dela eram do mesmo tom violeta claro que as nuvens tinham antes do nascer do sol. Com cuidado para não acorda-la, eu levantei a mão dela de volta para a minha pele e a segurei lá cheia de curiosidade. Primeiro não havia nada, e depois, após alguns minutos, uma mistura de cores, como um monte de borboletas, estava se espalhando em seus pensamentos.
Maravilhada, eu observei seus olhos. Nada fazia sentido. Apenas as cores e os formatos e os rostos. Eu gostei de ver a freqüência com que meu rosto – meus dois rostos, a horrível humana e a gloriosa imortal – apareciam em seus pensamentos inconscientes. Mais que o de Edward ou se Rosalie. Eu estava empatada com Jacob também; eu tentei não deixar isso me afetar.
Pela primeira vez, eu entendi como Edward foi capaz de me observar dormindo noite após noite, só pra me ouvir falando no sono. Eu podia ver Renesmee sonhando pra sempre.
A mudança no tom de voz de Edward chamou minha atenção quando ele disse, “Finalmente”, e virou o olhar na direção da janela. Nada estava escondido na escuridão; tudo tinha acabado de mudar de cores.
Leah, ainda observando, se levantou e se enfiou num arbusto enquanto Alice aparecia do outro lado do rio. Alice se balançou pra frente e pra trás num galho como se fosse uma trapezista, seus pés chegando a altura das mãos, antes de atirar seu corpo numa graciosa espiral sobre rio. Esme deu um salto mais tradicional, enquanto Emmett se jogou direto na água, atirando água tão longe que algumas gotas bateram nas janelas traseiras. Para minha surpresa, Jasper vinha logo atrás, seu próprio salto eficiente parecendo suavizado, até mesmo sutil, depois dos outros.
O enorme sorriso se esticando no rosto de Alice era familiar de uma forma obscura, estranha. De repente, todos estavam sorrindo pra mim – Esme docemente, Emmett excitado, Rosalie um pouco superior, Carlisle indulgente, e Edward na expectativa.
Alice entrou na sala antes de todos os outros, a mão esticada na frente dela, a impaciência fazendo uma auréola quase visível ao seu redor. Eu sua palma havia uma chave comum feita de bronze com uma fita rosa grande demais amarrada nela.
“Feliz aniversário!” Ela gritou.
Eu revirei os olhos. “Ninguém começa a contar no dia do nascimento”, eu lembrei ela. “Seu primeiro aniversário é quando se completa um ano, Alice.”
Seu sorriso ficou presumido. “Não estamos celebrando seu aniversário de vampira. Ainda. É treze de Setembro, Bella. Feliz aniversário de dezenove anos!”

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